Conto: A luz no fim dos olhos


Dizem que o gramado do vizinho é sempre mais verde, porém hoje aqui em Gramado RS, a grama estava irritantemente branca de neve num natal fora de época. Até o Gaúcho em frente à rua coberta não disfarçava o treme treme da erva mate. -Alô China! Grita o infeliz, mal sabe quanto odeio este apelido, esta profissão de guia turístico, este sorriso forçado de cada dia e este maldito lugar sempre tão nazista, tão burguês, tão... -Opa! Respondi de automático com a mão direita quase como um heil Hitler nordestino. Dentro do ônibus, fazendo a locução do tour desta cidade imensa, sou obrigado a encher os olhos das crianças a bordo sobre o espetáculo Natal Luz que ocorre no lago negro.

Eu odeio este dia e estou preso nele certamente há mais de cem anos. Conheço cada canto desta fatia de 24 horas, demasiados tropeços, beijos, íntimos pensamentos contrastantes dos habitantes do meu frio dia. Nada muda sem minha vontade, até que comecei a contar as estrelas e para minha surpresa, uma, pequena e miserável deste céu tão noturno, pisca diferentemente a cada dia, como luz no fim dos olhos. Deve ser alguém em alguma colônia acorrentado ao mesmo pesadelo que eu, infelizmente só posso vê-la, esta poeira de cidade não me permite piscar de volta.

Leio tua transmissão em código morse sempre antes do fim cíclico e quando acordo, cada dia é Kikito. Como estrela que pisca, no campo de concentração do humor em um natal fora de época.

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